Pornografia na web e sexo virtual são vícios, mas têm tratamento

Orientação psicológica e espiritual ajudam na recuperação de um problema cada vez mais comum por conta da facilidade de acesso.

É muito fácil, hoje em dia, entrar na internet e acessar pornografia em geral, o que abre o caminho para a infidelidade, pedofilia e outras perversões. Há gente praticamente (ou realmente) viciada em pornografia eletrônica (chats, sexo com webcam, casais exibicionistas, sites, filmes, fotos, blogs). Essa facilidade banaliza o sexo e cria a possibilidade de encontros virtuais ou reais até para pessoas que não pensavam nisso. Além da questão da transgressão, do pecado, há um agravante: a pornografia na internet é viciante, fato comprovado por especialistas. E é um vício de complexa recuperação, como nos casos de alcoolismo, compulsões ou consumo de drogas.

Em uma realidade em que muitos têm conexão de banda larga em seus computadores domésticos (ou até mesmo no trabalho, o que pode acarretar demissões), ou que facilmente usem seus laptops com câmera no quarto (inclusive crianças), a pornografia nunca foi tão fácil de ser consumida, basta um clique no mouse. Nem programas de filtragem (que bloqueiam conteúdo pornográfico ou violento) são tão eficientes, pois mesmo que os pais os acionem, as crianças acham na própria internet meios de burlar o bloqueio. Ademais, a própria programação pornô acha meios de chegar até mesmo ‘sem querer’ ao internauta, como em websites de busca (armadilhas que fazem com que certas palavras digitadas abram fotos impróprias, apesar dos filtros disponíveis nesses sites).

“Achava que só acontecia com outras pessoas”

Zaira (nome fictício a pedido da entrevistada) tem passado por maus bocados, “Uma noite fui dormir na casa de uma amiga, pois meu marido estava viajando a trabalho e eu não me sentia segura sozinha em casa. A amiga ligou o computador e começamos a brincar em chats, até ela ir para um que permitia que as pessoas se vissem, usando webcams. Do outro lado, um rapaz começou a insinuar certas coisas e minha amiga correspondia. Naquelas de me dizer ‘aproveite a vida, seu marido está longe’, ela começou a se exibir para o homem que nem conhecia. Eu fiquei de lado, vendo, e quando as coisas esquentaram mais eu fui para a sala, deixei os dois lá”, conta. Porém, a história não acabou neste ponto: “Quando voltei, ela já estava conversando com um casal. Quando eles perceberam que tinha mais alguém com ela, fizeram mil propostas e começaram a tirar a roupa. Saí de novo do quarto, mas minha amiga continuou.”

Por ser casada, Zaira também se sentiu mal por outros motivos. “Nunca traí meu marido fisicamente, e me sentia mal por isso”, diz. Mas a influência da ‘amiga’ realmente não foi boa: “Na casa dela eu fiquei constrangida, mas na minha casa, quando me vi sozinha pela primeira vez, deixei aquele pavio de curiosidade que começou com a amiga queimar de vez e entrei num site que já mostra as pessoas na câmera logo de cara, que ela tinha me mostrado. Nem quero dizer o que acabei fazendo, pois tenho muita vergonha. Depois, muitas vezes entrei para ver vídeos e fotos. É incrível a quantidade de coisa que a gente acha, inclusive de pessoas comuns, que se exibem com webcams ou tiram fotos de sua intimidade com câmeras digitais ou telefones celulares e depois publicam.”

Zaira, que é cristã, procurou ajuda: “Durante um culto, fiquei muito envergonhada, pensando em tudo o que havia feito e decidi conversar com uma pastora da minha igreja. Por sorte ela é uma pessoa séria, de bem, e me deu o maior apoio. Oramos muito e, embora envergonhada, me senti bem. Mas ela também me encaminhou a uma psicóloga, que tem me ajudado muito. A conselho delas, eu procuro outras ocupações na hora em que dá vontade de ver pornografia. Tirei o computador do quarto e pus na sala. Meu marido estranhou, mas falei que eu queria mais espaço no quarto. Ele não sabe.”

A moça diz que o fato de o marido não saber a deixa com mais sentimento de culpa. “Mas estou trabalhando uma forma de contar com jeito. E me anima muito, porque estou me livrando do vício, pois consigo usar a internet de outras formas boas, como falar com amigos e parentes distantes ou para ler notícias. Mesmo sozinha, já me peguei sem vontade de ver pornografia. Hoje já consigo me conectar só para ouvir minhas músicas, por exemplo”, afirma.

Ela conclui: “De repente me vi em uma situação que achava que só acontecia com outras pessoas: o vício. Na hora em que começou a me atrapalhar no estudo, no trabalho e principalmente em meu casamento, vi que tinha coisa errada. Mas só me choquei mesmo quando a terapeuta me explicou que eu era, sim, uma viciada. O pior é que eu soube pela minha psicóloga que crianças estão na mesma situação, e tudo começou com notebook com câmera no quarto e reuniões de amiguinhos sem adultos por perto, sempre com um deles acendendo o fogo do incentivo, o que me deixou ‘passada’.”

“O preço que isso cobra é alto”

José (nome fictício), empresário e profissional liberal, também é casado e acabou nas malhas do sexo virtual: “Já deixei minha esposa dormindo no quarto e saí de fininho para entrar na internet na sala. Toda hora ficava olhando para a porta do quarto com medo de ela acordar e me pegar ali no sofá com o notebook. Tem cabimento? Eu ter medo da minha própria esposa?” Ao contrário de Zaira, José contou à mulher: “Ela disse que não ia mentir, que estava muito decepcionada e se sentia traída. O clima ficou muito pesado, triste e chato por um bom tempo. Mas ela acabou me apoiando e isso me deu muita força.”

O empresário continua: “Hoje me acho um idiota, um ‘moleque velho’, quando olho para trás e penso no que eu fazia, sendo que tenho uma esposa maravilhosa em casa. O clima de aventura parecia bom, mas o preço que isso cobra é alto. Quando eu comecei a avançar a madrugada na internet, fui prejudicado no trabalho, pois fui a uma reunião super cansado e com sono, perdendo o cliente (que não ficou com a melhor das impressões). Comecei a perceber que era um vício. Só não fui a um psicólogo porque minha esposa me ajudou muito, mas se eu tiver uma recaída, procurarei. Sou um microempresário e tenho responsabilidades, funcionários que dependem de mim para o sustento de suas famílias. Isso não é papel de um homem feito, um chefe de família e líder de uma equipe de trabalho”, ressente-se.

Sexo virtual, traição real

Há pessoas que veem pornografia em forma de vídeos, fotos ou texto, e ficam nisso. Outros acabam fazendo sexo virtual. “É importante diferenciar quem faz sexo pela internet de quem usa pornografia”, diz a psicóloga Cecília Zylberstajn.

Segundo ela, que é psicodramatista e terapeuta de adolescentes e adultos em São Paulo, o sexo virtual é mais real do que pensamos, mesmo feito à distância e sem contato físico: “Quem faz sexo pela internet está se relacionando com outra pessoa real. Isso pode ser considerado uma traição, já que o dicionário Houaiss a define como ‘infidelidade no amor’, que por sua vez é definida como ‘manutenção de ligações amorosas com outra pessoa diferente daquela com quem se está comprometido’.”

E explica mais: “Quem consome pornografia entra em sites, assiste a filmes, vê fotos, relaciona-se com imagens e fantasia, não mantém um relacionamento amoroso nem real.” Ainda assim, indica um perigo: “Mesmo sem definir o consumo de pornografia como traição, pesquisas mostram que pessoas se sentem traídas quando o cônjuge consome pornografia.”

É vício, mas tem tratamento

“Hoje temos a comprovação científica de que pornografia tem um potencial de adicção, ou seja, é capaz de viciar”, afirma Cecília, acrescentando: “Consumir pornografia tem um efeito similar no cérebro ao do consumo de drogas. O tipo de adicção que o abuso da pornografia gera pode ser comparado à compulsão por compras e ao vício do jogo, por se tratarem de vícios em comportamentos específicos.”

A psicoterapeuta explica que o tratamento para o vício em pornografia compreende psicoterapia individual, de casal (quando for o caso) e a participação em grupos de 12 passos, tanto para o dependente de pornografia quando para o(a) companheiro(a). “No primeiro caso, já existe um grupo chamado Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (D.A.S.A.), que funciona nos mesmos moldes dos Alcoólicos Anônimos (AA).”

Como quase tudo na vida, a internet trouxe benefícios e perigos. Às vezes, o bom senso ajuda muito, mas só ele não basta para evitar os efeitos nocivos. Ajuda profissional, como a do psicólogo, ou espiritual, com orações e orientação, se fazem mais do que necessárias. E podem ser eficazes.

Fonte: ArcaUniversal / Profetico

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